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Entrevista: Ayurveda e a Saúde da Mulher

por Sabrina Alves
13/08/2008

por Luciana Cerqueira - Repórter do Portal INFORME YOGA

artigo postado no www.informeyoga.com.br

É inegável: a mulher contemporânea, esteja ela com 25 ou 60 anos, deseja se manter saudável em termos de corpo, alma e mente. Afinal, ter uma atitude de bem com a vida deixou de ser uma meta pessoal para se tornar uma tendência de estilo de vida que hoje orienta a conduta de inúmeras mulheres (e homem também, claro). Com significativos investimentos de tempo e dinheiro, cuidam atentamente daquilo que comem, bebem e lêem, como se exercitam, sobre o que meditam, o que consomem, onde passeiam, como constroem e organizam suas casas, e assim por diante. Até ícones femininos “pop star”, a exemplo da cantora Madona e a modelo Gisele Bünchen, se tornaram ainda mais valorizadas ao anunciar em entrevistas e fotos publicitárias que se dedicam a praticar yoga e meditação.

Trata-se de um dado cultural interessante a se observar, pois esta mudança interfere diretamente na relação de prioridades que as pessoas estabelecem para viver, principalmente no que diz respeito ao resgate da espiritualidade feminina e sua reaproximação com a Natureza. Conforme analisa a médica especializada em ayurveda, Brenda Kalil, que integra o corpo docente do Instituto de Cultura Hindu Naradeva Shala e trabalha em alguns dos principais centros médicos da cidade de São Paulo como Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Santa Catarina, Hospital e Maternidade São Luís, "as mulheres vivenciaram um afastamento prejudicial dos ritos e seus ciclos naturais por batalharem uma posição ativa no mercado de trabalho. Como ônus, sofrem com disfunções sérias hormonais e problemas no aparelho reprodutor feminino que têm gerado casos freqüentes de menopausa precoce, endometriose e infertilidade".

Ela comenta que em certas regiões da India, as mulheres se reúnem para celebrar a transição de ciclos de passagem como a menarca, o casamento, a gravidez e até a entrada na idade maior. "São experiências muito ricas, pois estes círculos de mulheres possibilitam a troca de experiências entre gerações de mulheres e fortalecem a tradição do poder criador feminino."

Sabrina Alves, terapeuta ayurvédica com especialidade em mulheres e coordenadora do projeto Clã dos Ciclos Sagrados, iniciativa voltada a resgatar a integração da mulher com os mistérios da menstruação e dos ciclos divinos femininos, compartilha desta visão e explica que "a origem de muitas doenças está na desconexão com as energias primais da Shakti, que é o princípio feminino da vida." Ela sugere às mulheres que se reconectem com a sabedoria primal, através de cuidados diários com a respiração, alimentação, higiene corporal e meditação, sempre respeitando os limites e as próprias necessidades.

Na medicina Ayurveda, isto é definido como Dinacharya (estilo de vida do dia) e Ratricharya (estilo de vida noturno) e inclui:

- 10 a 15 minutos de meditação diária;
- 10 a 15 minutos de exercícios físicos, como prática de ásanas;
- entre 10h00 e 14 horas almoço com alimentos sáttvicos;
- antes de 20 horas realizar o jantar, com comidas leves e livres de conservantes químicos e/ou frituras;
- por volta das 22 horas retira-se para dormir.

Sabrina Alves e Brenda Kalil conduzem, periodicamente, no Instituto de Cultura Hindu, Naradeva Shala, um curso voltado às mulheres onde se detalham as mudanças hormonais e psíquicas que acontecem nas diferentes fases da vida da mulher (Infância, menarca, sexualidade, gestação/puerpério, amamentação, Maturidade e Velhice). Também são apresentados e oferecidos tratamentos ayurvédicos benéficos à mulher, como banhos corporais e de assento, bastis (enemas) e massagens.

"Por meio de técnicas milenares do ayurveda, a mulher aprende como resgatar o feminino adormecido e passa a se reconhecer novamente como fêmea", salienta Sabrina. Às mulheres vegetarianas, a doutora Brenda recomenda observar e moderar o consumo de farinhas brancas, açúcares (especialmente se estiver com algum tipo de infecção vaginal, como a candidíase), laticínios e soja. No caso do soja, o alerta deve-se ao fato da proteína de soja acentuar a acidez no estômago, exigindo do organismo um maior consumo de cálcio para equalizar o PH interno. "A forma mais adequada de absorver a soja é através do tofu, que permite a absorção mais inócua da isoflavona pelo organismo humano." Outro contraponto sobre a soja é o fato da transgenicidade das sementes, pois as pesquisas ainda são inconclusivas sobre os malefícios de organismos geneticamente modificados, especialmente ao organismo feminino tão sensível aos hormônios.

Sobre a parte estética, a Ayurveda preconiza o cuidado de “dentro para fora”; isto é, nada é mais revitalizante do que se cuidar diariamente com meditação, alimentação, sono e sexo adequado. Assim, o sadhana pessoal fará a diferença na tez da pele, assim como os tratamentos de desintoxicação ajudarão o organismo a liberar toxinas e impurezas. Sabrina explica que o fluxo menstrual deve funcionar como um processo de rejuvenescimento do corpo. "Para a saúde feminina o repouso e o recolhimento são fundamentais nos 3 primeiros dias do ciclo menstrual e deve se evitar o uso de absorventes internos que bloqueiam o processo natural de eliminação". Além disso, um cuidado auxiliar é fazer a Respiração Solar a fim de revitalizar e organizar a energia interna da mulher. Também podem ser praticados determinados mudras (gestos de poder com as mãos) para canalizar a energia de limpeza.

As estações do ano também podem inspirar determinados cuidados com a saúde, já que, na leitura ayurvédica, a força de determinados elementos naturais está mais ativa. São os chamados Ritucharyas que conectam a energia feminina com as estações do ano. Segundo a ciência Ayurveda, o dosha Vata manifesta-se a partir dos elementos Éter e Ar; Já o Pitta manifesta-se principalmente pelo elemento fogo e o Kapha, pelos elementos terra e água. Todos os seres humanos têm consigo os três doshas, que definem sua constituição física. Quando estes estão em harmonia, o organismo está saudável, da mesma forma quando desarmonizados, o corpo fica doente. No outono, por exemplo, se produz o acúmulo de Kapha (úmido e frio) que vai provocar o aumento da estrutura interna. Porém, é preciso cuidados para não exagerar no consumo de doces e lácteos e diminuir a atividade física.

A Dra. Brenda Kalil e a professora Sabrina Alves, realizam periodicamente workshops de "Ayurveda para Mulheres" no Naradeva Shala e demais escolas parceiras em todo o Brasil e uma vez por ano, realizam o retiro de Ayurveda para Mulheres de cerca de 03 a 04 dias em um local afastado das grandes cidades, onde visa-se o re-contato da mulher com a sua natureza mais pura.

Sabrina Alves

Dra. na área de Ciência da Religião pela PUC/SP com enfoque em gênero, religião e decolonização. Com a pesquisa mais recente em Gênero, Sexualidade e decolonialidade nos Textos Clássicos do Āyurveda em observância da sua prática atual na diáspora Índia-Brasil. Formada em Āyurveda pela Escola Latino-Americana de Āyurveda e Instituto de Cultura Hindu Naradeva Shala, desde 2006; Participou de Cursos Avançados e de Especialização na Índia no AVP – The Arya Vaidya Pharmacy; Desenvolve há mais de 15 anos trabalho com sexualidade e pesquisas na área e gênero no Āyurveda. Desde 2008 desenvolveu com a Dra Brenda Kalil (in memoriam) uma abordagem e trabalho específico de Āyurveda para mulheres com atendimentos, workshops e vivências com a proposta de promover a autogestão ginecológica; Realiza um estudo profundo sobre Ahara (alimentação) com base nos princípios do Āyurveda e a alimentação natural com enfoque nas tradições alimentares locais do Brasil, usando como base o Guia Alimentar Brasileiro. Coordenou em 2010 o Curso Avançado de Āyurveda para Mulheres com a presença do Dr. Robert Svoboda e Dra. Claudia Welch, com os quais mantém constante contato de aprendizado e parceria; coordena os cursos de Pós-gradução em Āyurveda no Instituto Naradeva Shala, o Curso Semipresencial de Formação em Āyurveda, onde também faz parte do corpo docente. Atualmente desenvolve atendimentos com enfoque em um Āyurveda revisitado, feminista, decolonial e de Bem Viver para mulheres cisgênero e transgênero, homens transgêneros, pessoas binárias e agenêres.
ayurveda, tri dosha, dosha, ayurvédica, medicina indiana


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